Assista ao vídeo, ou se preferir, leia a história logo abaixo:
Dizem que em Doolin, na Irlanda, onde o vento canta entre as falésias e o mar bate nas pedras como se guardasse mil segredos antigos, existe uma casa grande e elegante.
Uma casa que sempre pertenceu a uma família, mas, antes dela existir, já havia alguém lá.
Seu guardião não era humano.
Seu nome era Ronan, um jovem leprechaun de cabelos ruivos flamejantes, olhos verdes como folhas molhadas, bonito como um mortal de vinte anos.
Vestia-se de verde, como ditam as lendas, mas sua aparência elegante contrastava com qualquer imagem infantil ou caricata que as histórias contam. Ronan era belo, mágico, perigoso.
E desde antes que tijolo algum tivesse sido colocado naquela casa, ele já habitava seus campos, protegendo aqueles que a chamavam de lar.
Com o tempo, a família diminuiu, até restarem apenas uma viúva e sua filha:
Siobhán, a viúva gentil, porém frágil.
E Aislinn, sua filha de longos cabelos negros e olhos castanhos, tão bonita quanto o verão irlandês em seus dias mais raros.
Ronan viu Aislinn nascer, dar seus primeiros passos, crescer com a mesma graça das flores que ele fazia brotar no jardim.
Ele sempre a acompanhou, invisível para os outros, visível apenas a ela, sua amiga, sua protegida, seu amor silencioso.
Mas a mãe morreu.
E com sua morte, o medo entrou na casa.
Aislinn herdou terras, fortuna, responsabilidade.
E temendo não conseguir administrar tudo sozinha, aceitou o cortejo de um mortal chamado Declan, educado, religioso e ambicioso.
Ronan tentou alertá-la, confessou seu amor, disse que poderia fazê-la feliz, que a faria a mulher mais próspera da Irlanda.
Mas Aislinn apenas sorriu com a bondade dolorosa dos que amam sem devolver.
Disse que o via como um amigo.
E casou-se com Declan.
Por insistência do marido, mudaram-se para longe.
Não por desejo, mas por medo, Declan temia criaturas mágicas.
Ronan ficou sozinho na velha casa, mas permaneceu lá.
Prometeu a si mesmo: “Mesmo que ela nunca volte, cuidarei deste lugar por ela.”
Os meses passaram.
E como a água desgasta a pedra, o amor desgastou o casamento.
Declan mudou.
Tornou-se frio, grosso, indiferente.
Proibiu a esposa de visitar o leprechaun.
E quando Aislinn finalmente descobriu sua amante, o mundo desabou como tempestade sem aviso.
Ela pediu divórcio.
Ele respondeu que aceitaria apenas se recebesse metade da herança.
Desesperada, Aislinn escreveu uma carta.
Pediu à criada que levasse para seu antigo endereço.
Ronan leu.
E na mesma noite respondeu:
“Volte. Traga-o até mim. O resto… deixe comigo.”
O plano começou silencioso como vento.
Aislinn disse ao marido que assinaria os papéis, entregaria metade da fortuna, mas apenas se fosse na casa antiga.
Pois ali, sentia-se segura.
Declan desconfiou… mas aceitou.
E então, em uma tarde cinzenta, o casal e um homem encarregado dos documentos chegaram ao portão de ferro. O interior estava calmo demais, silencioso demais.
Aislinn mal respirava. Seu coração sabia que algo se movia entre as paredes.
Antes que pudesse assinar, o vento soprou violento.
As portas bateram.
As janelas se fecharam.
A luz vacilou.
E a gargalhada, ah, a gargalhada ecoou como sino fúnebre.
Os homens fizeram o sinal da cruz.
Correram para as portas.
As maçanetas queimaram suas mãos como ferro em brasa.
Uma voz, profunda como a terra irlandesa, falou:
“Assine os papéis devolvendo tudo a Aislinn, renuncie à herança, ou sua alma não sairá viva deste lugar.”
Então vieram os rosnados.
Do fundo do corredor surgiram cães negros, grandes como lobos, com olhos brilhando fogo.
Uma matilha espectral que caminhava entre o mundo dos vivos e das lendas.
Declan gritou que aceitava, que apenas queria ir embora.
Aislinn, com mãos firmes como jamais tivera, entregou os papéis.
E Declan assinou, tremendo como folha ao vento.
A porta se abriu.
E os homens fugiram, deixando para trás suas orações, sua coragem, sua arrogância.
Os cães sumiram.
E Ronan apareceu com um sorriso, não cruel, mas satisfeito.
Seu riso encontrou o dela…
e naquele eco havia liberdade.
Aislinn o encarou.
Viu ali não apenas magia, mas amor.
E pela primeira vez, escolheu o leprechaun.
Ronan dobrou sua fortuna, fez suas terras florescerem, trouxe alegria à casa antiga.
E juntos viveram como marido e mulher.
Um ano depois, Aislinn deu à luz uma menina, ruiva como o pai, com olhos verdes que carregavam o brilho do outro mundo.
Um amor selado por promessa antiga.
Uma vida nova sob o céu de Doolin.